Monday, December 18, 2006

EURICO GONÇALVES NO FAMAFEST 2000, III

Eurico Gonçalves
nas palavras de outros



Hoje, a tua pintura afirma de forma entre nós talvez única, a única fidelidade que Breton pedia aos que diziam seu o surreal: um vanguardismo realmente expresso, realmente capaz de absorver e de, se necessário, DESTITUIR toda a vanguarda anterior. Entendo aqui por vanguarda a criação poética tão profundamente gerada na necessidade transmitir o homem de uma época, que reúne e ultrapassa todas as épocas. Não é negar as épocas, o passado, não seria possivel desfazermo-nos delas, é como arremessá-las para o futuro. - Mário Cesariny (carta dirigida ao pintor, no catálogo da Retrospectiva 1950/70, Galeria São Mamede, Lisboa).

Surrealista, Eurico é-o de facto. Eurico fala-me do "vôo onírico, quando nos sentimos pairar", da "extrema leveza do próprio gesto", e eu penso que pintar, afinal, resulta da necessidade de fixar esse gesto, e que a comunicação pelo gesto pode ser anterior à comunicação verbal, implicando um outro modo de percepção no homem.
Ernesto Sampaio
(fragmento de artigo no "Diário de Lisboa", 1989).

Dos desenhos de Eurico (...) direi que me aparecem como um sistema solar, perfeito no movimento sobre si mesmo. (...) Outra componente importante desta extensa obra é a liberdade da linguagem. ( ) O espaço vazio que cria, com as suas caligrafias, é naturalmente o infinito que temos, a "courbe unique" que Breton celebrou. O que leio nesta obra é um raro momento de meditação e de alegria. Hoje já nada pode ser visto como era há 30 anos; por exemplo, à exaltarão perturbadora de uma qualquer paisagem ou monumento, há que somar coisas como os desenhos angulosos do Euríco ou as suas cartas caligráricas e herméticas que, curiosamente por vezes, têm o tom rosa dos "pôr de sol que fazem desmaios", como dizia António Nobre.
Cruzeiro Seixas
(fragmento do prefácio de Uma Exposição de 1983, na Galeria da junta de Turismo da Costa do Sol, Estoril.)

A fé de Eurico é boa e dele, com os movimentos que pratica, de mão, braço e olhar, no gesto certo que lhe convém, ou conveio e convirá. Quem não o quiser, que vá a outra loja ­mas nesta é capaz de ficar mais bem servido por autenticidade do que se lhe oferece... Por isso, o pintor vê as lojas dos outros passar, continuando a sua imóvel viagem pelas telas e pelos papéis, numa beleza sequer buscada na carícia do pincel chinês.
José-Augusto França
(fragmento do prefácio da Exposição Poesia e Pintura, 1950/1994, em Cascais.)

Eurico é uma personalidade do meio artístico e intelectual português que quase dispensa apresentações.
A sua vasta obra descende das primeiras experiências surrealistas conhecidas em Portugal e é, na minha opinião, uma consequência lógica do conhecimento do Surrealismo visto de um país pequeno e culturalmente isolado, o Portugal nos anos cinquenta. Um Surrealismo, que tal como em outros países, como Estados Unidos e a França, se encontra a dado momento com a cultura oriental. Este facto é determinante. Revela-se em muitas poéticas que dele decorrem, gerando duas situações: uma de natureza filosófica e outra puramente visual.Trata-se, sobretudo na Europa, da descoberta da escrita oriental entendida nos seus aspectos plásticos, do fascínio pela milenar sabedoria do domínio gestual, que constrói o ideograma. Ideograma que é tema e fonte de inspiração de múltiplos artistas, predominantemente nas décadas de cinquenta e sessenta. E o momento em que esse particular aspecto da cultura oriental é exaltados e a sua influência é visível nas obras de Henri Michaux, Georges Mathieu, jean Degottex (com quem Eurico estuda em Paris) e outros grandes nomes da pintura europeia. Artistas que ao fascinarem-se pelo Oriente desenham no gestualismo europeu uma genealogia diferente da do gestualismo americano, em que outras culturas interferem. Produto de uma adesão existencial ao surrealismo, declarando-se surrealista ainda hoje, Eurico realisa as suas pinturas-escritas de um só gesto, numa atitude comparável à dos expressionistas abstractos, mas a sua obra nada tem de expressionista. Dela resulta uma serenidade Zen, um orientalismo já entendido por Fernando Pessoa (Ricardo Reis) e que Eurico gosta de citar: "Nada teu exagera ou exclui. Põe quanto és no mínimo que fazes".
Uma relação frutífera entre as centenas de experiências de poesia e escrita automática e o gestualismo de grande escala, imprevisível mas não por isso redutor, conferem a este pintor, mal compreendido do meio artístico português uma rara qualidade. Para quem quiser e souber VER.
Silvia Tavares Chicó, Colares, Julho de 1994.



Nada teu exagera ou exclue
Põe quanto és no mínimo que fazes
Ricardo Reis

«Surrealismo», «Abstracção Lírica», «Espirito Zen», são designações frequentes a propósito de Eurico Gonçalves!
Entendê-las em necessária relação, impõe-se-nos pois, surgindo aqui o termo abstracção no verdadeiro sentido de instrumento lógico, onde o verbo abstrair passa a ser sinónimo dê purificar e purificar significa intensificar.
Assim, sendo axiomátioo que o «Zen» não pode ser expresso por elementos verbais ou recursos simbólicos, exigindo uma resposta imediata, não analítica, a um impulso vitalista, a sua poética acerta-se às categorias estéticas da abstracção lírica, pelas quais o gesto criador não depende de qualquer intenção mimética, para antes funcionar como elemento investidor da génese artística. Assim também, a contemporaneidade absoluta do pensamento e do agir proclamada no fervor «romântico» dos surrealistas, justapõe-se ao saber místico de antiquíssimas crenças orientais.
E com isto queremos dizer duas coisas:
A moderna pintura ocidental, aproximada embora de sendas orientalistas, não deriva de apriorismos programáticos nem se implica em retrocessos históricos. Afirma inédito processo civilizacional de evidente significado sociológico.
A pintura de Eurico Gonçalves, integrando-se nessa actualidade, decorre consequente das suas próprias motivações internas.
Desenvolvendo-se entre o caligráfico e o gestual, a arte de Eurico Gonçalves nasceu duma actividade operativa, inteiramente divorciada de forças motrizes impostas do exterior. O automatismo surrealista está na sua origem e, para além dele, uma noção de especialidade que se baseia numa fenomenologia da criação artística, não considerada tão somente manifestação de total expressão individual, mas sobretudo como momento subtilmente individualizado da consciência universal.
Tal correspondência entre o íntimo e o cósmico só é possível na exacta identificação do gesto e do espaço que deixa de ser um dado para se declarar possibilidade de afirmação no desconhecido, ou seja: no vazio. E, a esse entendimento espacial, acerta-se então uma evidência temporal de mutabílidade e devir, ordenados na coordenação rítmica que constitui a força e a vida da Natureza.
Apenas que, se a pintura tradicional partia da Natureza para chegar ao quadro, agora é a partir do quadro que se chega à Natureza.
O auto-conhecimento da raiz individualista, o automatismo de imediata relação com a sociedade tecnológica, encontram ao longo do seu processo a sua mais evidente réplica de antítese.
Apenas fiel aos imperativos da sua sensibilidade, Eurico passou através duma ordenação rítmica de escrita automática, a pesquisas espaciais em que a sensualidade da mancha luminosa se sobrepõe estruturalmente ao grafismo anterior, em que a horizontalidade paisagística se harmoniza à verticalidade gestual.
Simultaneamente, as obras de Eurico ganham paradoxal consistência corpórea, matérias laceradas ou amalgamentos de colagem. Através da obediência ao impulso criador, no despojamento empírico, a obra de Eurico insinua, depois, na superfície abstracta a evidência do circulo, símbolo antigo da totalidade da «psyche», nos seus múltiplos sentidos e compreendendo a relação sacra e erótica do homem com o Universo.
Purificadas, na ausência de contornos, intensificadas ao abrirem-se no vazio, as obras de Eurico não deverão ser lidas, porém como símbolos, dado que não surgem de modificações emblemáticas, de leitura organizando-se e dissolvendo-se sob o nosso olhar, exigindo-nos, essas oferecem-se-nos como signos possíveis de plenitude orgânica e espiritual no momento exacto onde Eurico Gonçalves afirma a sua mais alta virtude de pintor contemporâneo.
Fernando Pernes. 1968


Desdobrar é um acto de abertura e de revelação. Abre-se um espaço, revela-se o que nesse espaço pode acontecer.
Não já inicial, desdobrar é um acto iniciador.
E, eis que a pintura de Eurico, vinda de uma "sábia ingenuidade" e de uma "prolongada adolescência", atinge a sabedoria dos processos e o estado adulto das construções que se reconhecem como tal.
É certo que, desde o inicio em 1950, Eurico é um "surrealista" que na dialéctica entre o "não saber" e o "saber" (que o confunde) procura entender o fluxo onírico que lhe dita os quadros.
É certo que, mais tarde, é o automatismo dos actos únicos da escrita que o leva ao encontro do Zen.
Mas, em todas as fases, Eurico aceita a revelação inicial do gesto, quer como sinal de uma actividade onírica, quer como marca apenas de si própria. Aceita, mas interroga e interroga-se, seduzido pelo fascínio do fazer acontecer e do saber como é que acontece.
E aí a pintura de Eurico se transforma verdadeiramente em escrita. Escrita que apela irresistivelmente para as leituras abertas e plurais de que formos capazes, nós, leitores.
As desdobragens de Eurico nascidas de um gesto artesanal de desdobrar (produto de uma oficina de operador plástico) são logo, desde a concepção, um acto de re-invenção das leis da escrita: abrindo, revelando, propondo. Horizontais, as paralelas conduzem o percurso dos olhos na leitura dos caracteres múltiplos e instantâneos: pegadas? grafitis? inscrições? assinaturas? mensagens? - o que estará escrito entre essas linhas? - e o que serão essas linhas: simples pautas? caminhos paralelos? reverberações de um traço inicial sempre re-iniciado? horizontes múltiplos? - elas próprias também escrita(s)?
A análise grafológica das escritas de Eurico, que aqui nestas desdobragens têm, pelo menos, três diferentes modulações (os traços horizontais, a escrita caligráfica e as marcas) certamente seria interessante na revelação de sub-textos que inevitavelmente haverá,
Mas, para já, bastam-nos as leituras imediatas que Eurico desdobra nesta exposição para nosso prazer.
- E é muito! Já que, como diz Eurico, "a pintura, essa, sabe mais de mim do que eu dela".
E.M. de Melo e Castro. 1980


Metáforas da criação, da descoberta do mundo, do acto poético em si próprio as obras plásticas de Eurico recriam uma a uma o acto inaugural do artista, num gesto pessoalíssimo que nunca se deixa levar por maneirismos ou fáceis reiterações.
Picto-poeta surrealista, diz Eurico: "não queria que se deixasse de reparar que a minha pintura exprime-me melhor do que eu próprio e que, por assim dizer, sabe mais de mim do que eu dela", e di-lo porque na origem dessa pintura está o automatismo, magma inicial de onde depois vem tudo: a linguagem simbólica e alegórica, o onirismo, o informalismo gestual, o "zen", etc.
E uma pintura que nada tem a ver com a imitação ou a transcrição das coisas, tão ­pouco com os "fundamentalismos" abstraccionistas fanaticamente não-figurativos, mas se inscreve de direito naquela linha da poesia e da arte modernas que a partir de Lautréamont, Rimbaud, Seurat, Gauguin põe em crise a percepção literal do mundo e troca as aparências do "pouco de realidade" pelas visões de aurora boreal cujo teatro é o coração e o espírito do poeta.
Trata-se, na verdade, de uma experiência única, que vale, como diz André Breton falando de Degottex (com quem Eurico trabalhou em Paris) "não só pelo efeito que produz, mas pela qualidade, a pureza dos meios a que recorre". Em volta do automatismo e da libertação incondicional que pressupõe gira toda a história da escrita, do traço, e por isso mesmo os Campos Magnéticos puderam ser considerados, já não o livro com que Mallarmé queria que terminasse o mundo, mas o livro pelo qual tudo iria começar.
Eurico, nestas escritas, nestes desenhos e pinturas, começa e recomeça sem entraves nem escrúpulos um caminho que ninguém percorreu antes dele e ninguém percorrerá depois, feito de transes, de gestos instantâneos e fulgurantes que fixam em linhas e manchas de cor o bater visceral do coração, o pulsar da vida, unindo o que há de mais físico (o gesto de pintar) ao que há de mais espiritual, a expressão e o movimento, a alma e a animação. Eurico: "Surrealista desde 1949, nunca deixei de praticar o automatismo psíquico puro, que assumo até às suas mais extremas consequências". Essas consequências são inesgotáveis, têm a ver com o que a vida possui de mais arcaico e de mais sublime, numa ambivalência inerente ao universo da claridade e ao universo da sombra, inscritos com mão certeira no écran límpido do quadro. Do olhar à mão, a variedade do mundo adquire instantaneamente, como numa iluminação, um denominador comum. Aqui, longe de ser uma estrutura petrificada, a obra de arte é uma máquina que só funciona quando é contemplada. A energia do ponto que cria a linha, da linha que engendra a forma, persiste num processo de criação perpétuo, que faz participar no cosmos o microcosmo do quadro. O olhar do espectador está para estas correntes formais como a água para a corrente do rio; prisioneiro de uma zona ínfima de fixação na mácula da retina, refaz o caminho do gesto - criador para chegar à visão sintética do quadro, construindo, compondo como o pintor uma imagem que não resulta de avanços progressivos, ou retiradas estratégicas, mas surge e se equilibra instantânea, fulgurantemente. A ideia de criar funde-se com o acto e a obra é então obra de espírito. A mão do pintor é animada pelo poder de criar e destruir, de começar ou deter um tempo que está dentro dele, que contém o seu próprio tempo, do qual dispõe e pelo qual decide e responde. Em relação ao tempo da sua obra, o artista é a eternidade, posto que em nenhum momento esse tempo lhe escapa.
Caligrafias, manchas luminosas, despinturas, descolagens, desdobragens, todos estes processos de registo utilizados por Eurico satisfazem as necessidades do espírito e do coração, mostram que os mais profundos desejos humanos podem ser expressos, e isto releva do domínio mágico, que no conjunto tão confuso que recobre a palavra arte se descobre ao mesmo tempo que os artistas tomam consciência da acção que esse domínio exerce sobre eles.
Com os seus desenvolvimentos do automatismo surrealista, Eurico atinge aquele ponto de resolução das antinomias onde, para citar Claude Lévi-Strauss, "o objectivo e o subjectivo se encontram, queremos dizer o inconsciente". E na arte, assim como na magia, são as associações e os impulsos inconscientes que são activos. Na verdade, desde os inícios do movimento surrealista, o artista começou a sentir a antiga nostalgia dos poderes mágicos. Errando sem preparação nem conhecimento nas profundidades onde por vezes aparecem estranhas criaturas, ele próprio se espanta com aquilo que o seu ser contém. Por isso, o verdadeiro dever do artista é saber o que faz e transmitir esse saber com precisão, certo de que é apenas nesse estranho oceano que o ser pode encontrar salvação para si mesmo e para a terra inteira.
Ernesto Sampaio, in Catálogo da Galeria S. Mamede, Lisboa (1999), para a Exposição "COMO A ÁGUA PARA A CORRENTE DO RIO, 1959-90.

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