Monday, December 18, 2006

EURICO GONÇALVES NO FAMAFEST 2000, II

Eurico Gonçalves
fala de si próprio



PINTURA - ESCRITA / Dos anos 60 aos anos 90

Surrealista desde 1949, nunca deixei de praticar o automatismo psíquico puro, que assumo até às suas mais extremas consequências.
Através do improviso, as minhas figuras foram dando lugar a simples sinais gráficos, ágeis caligrafias abstractas, executadas fora de qualquer motricidade imposta do exterior, ou seja, um pintura de sinais, derivada do gestualismo, tão depurada quanto possível. A execução gestual, rápida, directa e sem retoque, confrontasse com formas arquetípicas do inconsciente colectivo, tão defendido por Jung, que demonstrou haver uma grande conformidade entre o movimento das mãos e o próprio estado de espírito. Por seu turno, André Breton declarou que a finalidade do surrealismo é a reabilitação de todas as capacidades psíquicas. Os dados imediatos do inconsciente e a intervenção do acaso foram explorados por mim na pintura-escrita que assumo como um ritual, pesquisando relações entre o comportamento vitalista Dádá e a sageza do Budismo Zen.
Se, no início dos anos 60, as caligrafias a tinta da china preta evidenciam o vazio, representado pela nudez branca do papel, nas despinturas, descolagens e desdobragens que realizo posteriormente, o suporte redescoberto na sua nudez original como campo residual da intervenção da escrita, em função do acaso. Chamo a atenção para a importância do prefixo "des" no desenvolvimento da minha obra. Segundo Zen, é pela negação do sinal que se cria um novo sinal. Assim, ao despintar, que consiste em tirar a cor, ao descolar, que consiste em retirar o que foi colado, e ao desdobrar, que consiste em ver o que fica, através de um processo psicologicamente análogo ao da "decalcomania", é o suporte que é revalorizado na sua globalidade, como amplo campo de registo gestual. O primado do suporte e a meditação visual dos processos de registo permitiram-me redescobrir, intuitivamente, na minha pintura de signos, o sentido do arabesco ibérico e das tradições artesanais mediterrânicas, onde o branco e o preto valem como cores e não como luz e sombra.
Ao aprofundar o automatismo psíquico, através do gestualismo e da caligrafia espontânea, aproximei-me do espírito Zen de uma arte directa, sem correcção, nem retoque, que, quanto a mim, encontra afinidades com a atitude vitalista Dádá. Uma concepção demasiado limitada do automatismo psíquico puro tem levado alguns críticos, literatos e muitos artistas a não compreender o surrealismo fora do âmbito figurativo, quando André Breton encontrara já, em 1955, a comprovação do automatismo psíquico numa pintura de signos, tão rigorosa e puramente abstracta como a de Jean Degottex, com quem trabalhei em Paris, em 1966-67. A meditação que proporcionou o meu encontro pessoal com Degottex intensificou a minha crença no surrealismo abstracto. Pela mesma razão, vim a prefaciar uma exposição de Henri Michaux, em Lisboa, em 1972. Curiosamente, Michaux e Degottex também aderiram ao espírito Zen, bem como outros artistas que admiro como Masson, Miró, Tápies, Ives Klein e Rothko.
O que importa, escrevia Breton, é não apenas o efeito a conseguir, mas "a Qualidade, a pureza dos meios" utilizados. E, em 1962, insistia: "A pintura actual, denomine-se ela action-painting, pintura gestual, informal, etc., provém, antes de tudo, do automatismo, deriva da promoção do automatismo pelo surrealismo". "A escrita automática não poderia ser um rim em si mesmo. Quando muito, procura-se obtê-la tão pura quanto possível e, a partir dai, é fácil reconstituir a série de operações mentais que envolve". "Não se está longe do tiro ao arco e do tomar conta das vacas, na filosofia Zen".
"A SETA JÁ CONTÉM O ALVO, MAS SÓ PERCORRE A SETA AQUELE QUE LHE CONHECE O ALVO. ASSIM É DE OLHOS VENDADOS QUE O GRANDE ATIRADOR ALVEJA" - António Maria Lisboa.
A minha pintura mais recente reafirmasse em função da textura e doutras características especificas do suporte, onde, por vezes, se reintegra a colagem como meio de autoprovocação da capacidade expressiva de uma linguagem, Que condensa em si a experiência do cheio e do vazio, da mancha e do traço vertiginoso. É uma pintura-escrita livre, inteiramente inventada no momento de execução.

Eurico Gonçalves. 1993-97


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